Saúde

“Faculdade ruim precisa ser fechada", diz CFM sobre o Enamed

Segundo o porta-voz, permitir que médicos mal preparados atendam a população é um risco à saúde pública

GABRIELLE PEDRO

23/01/2026 • 14:20 • Atualizado em 23/01/2026 • 14:20

Resumo

Alerta do Conselho Federal de Medicina destaca crise na formação médica no Brasil após divulgação do Enamed 2025, onde 13.871 estudantes de 39.256 concluintes estão em faculdades avaliadas como críticas ou insuficientes, e três em cada dez novos médicos se formam em cursos abaixo do padrão mínimo de qualidade.

Expansão acelerada de escolas médicas, especialmente no setor privado, ocorre sem infraestrutura adequada, número suficiente de docentes qualificados e campos de prática, resultando em mais de 400 escolas, cerca de 45 mil formandos por ano e falta de preparo prático, cenário criticado em comparação a países que exigem exames rigorosos antes do exercício profissional.

Defesa do CFM inclui apoio ao Profimed, exame nacional obrigatório para registro, fechamento de faculdades mal avaliadas e medidas internas para impedir registro de egressos de cursos ruins, com respaldo de 96% da população e 90% dos médicos, ressaltando que a prioridade deve ser a segurança da sociedade e não apenas o direito ao exercício profissional.

O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), prova que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade do ensino de Medicina de todo o país deu o que falar nesta semana. Isso porque mais de 100 cursos foram reprovados na avaliação. Ao todo, Ao todo, 351 cursos foram avaliados e 30% estão na faixa considerada insatisfatória. O diretor de Comunicação do Conselho Federal de Medicina (CFM) Estevam Rivello Alves faz um alerta: o Brasil vive uma crise profunda na formação médica e mantém uma distorção grave ao permitir que profissionais sem qualificação comprovada atuem no atendimento à população — algo que, segundo ele, não é admitido em países com sistemas de saúde consolidados.

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De acordo com o Ministério da Educação (MEC), dos 39.256 estudantes concluintes que participaram da prova, 13.871 estão vinculados a faculdades que receberam conceitos 1 e 2, classificados como crítico e insuficiente. Na prática, três em cada dez novos médicos se formam em cursos que não atingem o padrão mínimo de qualidade definido pelo próprio governo.

Diante desse cenário, o CFM discute medidas para impedir que esses egressos consigam registro profissional e, consequentemente, cheguem à linha de frente do atendimento médico. Segundo Rivello, a entidade avalia editar uma resolução administrativa que barre a inscrição de formandos oriundos de cursos mal avaliados. “Estamos falando de profissionais que, de acordo com o próprio Estado brasileiro, não demonstraram competências mínimas para exercer a medicina. A nossa obrigação institucional é proteger a sociedade”, afirmou.

Formação em colapso

Na entrevista, o dirigente sustenta que os resultados do Enamed não são uma surpresa para a categoria.

“As entidades médicas alertam há quase duas décadas que o Brasil entrou numa rota profundamente desequilibrada na formação médica”, disse.

Para ele, a expansão acelerada do ensino superior, especialmente no setor privado, ocorreu sem a contrapartida necessária de infraestrutura, campos de prática e docentes qualificados.

Hoje, o país soma mais de 400 escolas médicas, forma cerca de 45 mil médicos por ano e já ultrapassa 650 mil profissionais registrados, tornando-se o segundo país do mundo em números absolutos. “Não temos médicos com mestrado e doutorado suficientes para ensinar. Falta hospital universitário, falta ambulatório, falta estágio. O aluno tem aula teórica, mas não tem contato adequado com o paciente”, afirmou.

Rivello compara o cenário brasileiro ao de outros países. Nos Estados Unidos, Canadá e em diversas nações europeias, o exercício da Medicina depende de exames rigorosos de proficiência e de critérios estritos antes do contato direto com pacientes.

“Em países sérios, se você não passa na avaliação, você não atende. Aqui, a gente permite que um mal formado cuide daquilo que é mais valioso: a vida humana”, criticou.

Enamed expõe, mas não resolve

Embora reconheça falhas no próprio Enamed — que considera uma prova “mal dimensionada” e sem avaliação prática —, o CFM avalia que o exame cumpriu um papel central ao tornar visível a precariedade do ensino. “Mesmo com limitações, o Enamed escancarou aquilo que já sabíamos: a formação médica é insuficiente em grande parte do país”, disse.

O dirigente também rebate a posição do governo de que o exame não deve ter caráter punitivo individual.

“O ministro afirmou que ninguém será penalizado. Mas se está comprovado que alguém não tem preparo mínimo, como permitir que essa pessoa atenda pacientes?”, questionou.

Para ele, o debate central é ético: “O que deve prevalecer, o direito ao exercício profissional ou o direito à vida? Sem vida, não existe direito algum”.

Profimed e fechamento de faculdades

Como solução estrutural, o CFM defende a aprovação do Profimed, um exame nacional obrigatório para concessão do registro médico, nos moldes da prova aplicada aos advogados pela OAB. Enquanto isso não ocorre, a entidade estuda medidas internas para restringir o acesso ao registro profissional.

Além dos estudantes, o conselho aponta responsabilidade direta do Estado e das instituições de ensino. A maioria das faculdades com notas 1 e 2 no Enamed pertence ao setor privado, enquanto a maior parte dos cursos com nota máxima é pública.

Faculdade ruim precisa ser fechada. Em nenhum país sério do mundo escola insuficiente continua funcionando”, afirmou Rivello, atribuindo a situação à falha do MEC e dos conselhos estaduais de educação na autorização e fiscalização dos cursos.

Apoio da sociedade

Segundo o CFM, a proposta de endurecer as regras encontra amplo respaldo. Pesquisa citada pela entidade indica que 96% da população brasileira defendem a criação de um exame de proficiência para médicos. Entre os próprios profissionais, o apoio chega a 90%.

“O que está em jogo é a segurança da população”, concluiu Rivello.

“Ou o Brasil muda a rota do ensino médico, ou continuará colocando pessoas na mão de profissionais que o próprio sistema reconhece como insuficientemente formados.”

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