
No insetário, mosquitos são anestesiados para pesquisa
Renato Rodrigues/Instituto Butantan
Resumo
O Instituto Butantan inaugurou um insetário com nível 2 de biossegurança (NB2), dedicado à criação controlada de mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, vetores de doenças como dengue, zika e chikungunya, com o objetivo de fortalecer a pesquisa e acelerar o desenvolvimento de vacinas.
A estrutura atende exigências regulatórias da CTNBio, possibilitando ensaios para comprovar a segurança ambiental dos imunizantes, verificar o risco de transmissão de vírus vacinais pelos mosquitos e garantir autonomia científica ao processo do Butantan.
O laboratório opera sob rígidos protocolos de biossegurança, realiza ensaios com vírus selvagens e se prepara para pesquisas com vírus geneticamente modificados, além de planejar futuras investigações com outros vetores relevantes para a saúde pública, como o transmissor da doença de Chagas.
O Instituto Butantan inaugurou uma estrutura estratégica para a ciência e a saúde pública no Brasil: um insetário com nível 2 de biossegurança (NB2). O espaço é destinado à criação controlada de mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, vetores de doenças que afetam gravemente a população, como dengue, zika e chikungunya.
A iniciativa visa atender a exigências regulatórias e acelerar o desenvolvimento de novas vacinas. A estrutura permitirá a realização de ensaios exigidos pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O objetivo principal é produzir dados que comprovem a segurança ambiental dos imunizantes e a ausência de risco de transmissão de vírus vacinais pelos mosquitos.
O novo laboratório será integrado às plataformas de vigilância do Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS) e aos núcleos de Bioinformática. Segundo Sandra Coccuzzo, diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC) do Butantan, o avanço traz independência ao processo de pesquisa.
"Com isso, o Instituto ganha autonomia científica e regulatória, pois passaremos a gerar internamente evidências que sustentam o processo de liberação de novas vacinas. Sem dúvida esse avanço acelera o desenvolvimento, garante biossegurança e fortalece a resposta nacional frente às arboviroses", analisa Coccuzzo.
Soberania científica e segurança
O insetário representa um passo importante para a soberania científica nacional. O local permite que pesquisadores investiguem detalhadamente como os vetores se infectam e transmitem vírus. Além disso, será possível observar como os insetos respondem ao contato com vírus vacinais.
Esses testes são cruciais para análises de eficácia. Eles verificam se o vírus atenuado (enfraquecido) ou inativado (morto) presente em uma vacina é capaz, ou não, de ser transmitido pelo mosquito caso ele pique uma pessoa vacinada.
Carolina Sabbaga, diretora do Laboratório de Ciclo Celular do Instituto, explica o atual estágio do projeto. "A infraestrutura do insetário já está pronta e o cultivo dos mosquitos já foi iniciado. No momento, a equipe realiza ensaios de infecção utilizando vírus selvagens não modificados", afirma.
Para o trabalho com vírus geneticamente modificados, o Butantan aguarda a aprovação final da CTNBio. Sabbaga ressalta a importância de compreender o ciclo completo da doença. "É muito importante entender todo o processo de transmissão do vírus e da proteção conferida pela vacina, não só a interação do vírus com o organismo humano, mas também com o vetor", completa a diretora.
Como funciona a estrutura de biossegurança
A classificação NB2 (Nível de Biossegurança 2) determina as medidas rigorosas necessárias para lidar com organismos de risco moderado. O insetário possui acesso restrito, portas duplas com vedação e um sistema de pressão negativa no ar.
A pressão negativa impede que o ar de dentro da sala escape para o corredor ou ambiente externo. Além disso, existem filtros específicos nos sistemas de ventilação e protocolos severos de descontaminação.
Tiago Souza Salles, virologista e responsável técnico pelo projeto, detalha a segurança do local. "Essas condições garantem que, mesmo que os mosquitos estejam infectados com vírus selvagens, não haja risco de liberação para o ambiente externo. É o padrão internacional exigido para pesquisas com arbovírus", explica.
Os mosquitos são criados a partir de ovos em colônias internas. As larvas se desenvolvem em bandejas com água e, na fase adulta, são transferidas para gaiolas. A alimentação simula a natureza: solução açucarada e, para as fêmeas, sangue artificial.
Metodologia e próximos passos
Os pesquisadores já iniciaram ensaios com vírus da dengue e chikungunya para entender a replicação viral no vetor. O processo de verificação é minucioso. Para saber se o mosquito se infectou após contato com uma vacina, coleta-se a saliva do inseto. "Os mosquitos são anestesiados e é encaixado o probóscito [aparelho bucal] em uma ponteira com meio de cultura, simulando a alimentação. Ao se alimentar, o mosquito libera saliva, que é então coletada", descreve Salles.
Posteriormente, testes de biologia molecular detectam se há presença do genoma do vírus nessa saliva. Isso responde a uma pergunta regulatória fundamental: um mosquito que pica um vacinado pode transmitir o vírus da vacina? A resposta negativa é essencial para a aprovação do produto.
O insetário é versátil e poderá, no futuro, abrigar pesquisas com outros vetores. Entre eles, o Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas, que é transmitido por barbeiros e possui grande relevância para a saúde no meio rural.
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