Agroband

Super El Niño pode ter auge entre novembro e dezembro com calor fortíssimo

Projeções de centros internacionais indicam que o aquecimento do Oceano Pacífico pode atingir o pico entre novembro e dezembro com anomalias de até +4°C

VIVIANE TAGUCHI

09/07/2026 • 11:39 • Atualizado em 09/07/2026 • 11:43

O fenômeno El Niño pode registrar um fortalecimento expressivo ao longo do segundo semestre de 2026, com potencial para se tornar um dos episódios mais intensos dos últimos anos. Projeções divulgadas por centros internacionais indicam que o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial Centro-Leste deve atingir o pico entre novembro e dezembro.

Compartilhar

Caso o cenário se confirme, a anomalia térmica na região Niño 3.4 pode alcançar valores entre +3°C e +4°C, superando os superem as marcas históricas registradas em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.

De acordo com o pesquisador do Laboratório de Ciências Atmosféricas (LCA) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Thiago Rangel Rodrigues, os modelos climáticos mostram uma tendência consistente de aquecimento do Pacífico.

No entanto, o especialista ressalta que ainda existe um importante grau de incerteza por conta da chamada “barreira de previsibilidade da primavera”. Esse período restringe a capacidade dos sistemas de estimar a intensidade final antes do desenvolvimento completo das condições atmosféricas.

O Climate Forecast System (CFS), desenvolvido pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), projeta valores extremos próximos de +4,8°C em alguns cenários. Metodologias mais conservadoras, como o Índice Relativo do El Niño Oceânico (Roni), apontam anomalias entre +3,3°C e +3,5°C. Um evento passa a ser classificado como muito forte — popularmente chamado de Super El Niño — quando o aquecimento permanece igual ou superior a +2°C por vários meses consecutivos.

Os impactos nas lavouras

O agronegócio e a pecuária nacional estão entre os setores mais vulneráveis às mudanças provocadas pelo El Niño, que integra o sistema El Niño-Oscilação Sul (ENOS). O fenômeno altera globalmente a circulação atmosférica tropical, modificando o transporte de calor e umidade. Rodrigues destaca que o principal desafio para os produtores rurais não se resume ao volume acumulado de chuva, mas à distribuição das precipitações durante o ciclo das culturas.

A irregularidade das chuvas afeta diretamente o desenvolvimento de grandes commodities brasileiras, como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e feijão. Períodos secos em fases críticas do cultivo ou excesso de umidade durante o plantio e a colheita reduzem a produtividade e causam quebras de safra. Na pecuária, as altas temperaturas e a alteração na qualidade das pastagens provocam estresse térmico nos animais, diminuindo a oferta de carne e leite e elevando os custos de produção.

Diferenças regionais e reflexos na infraestrutura

Historicamente, o El Niño gera respostas climáticas distintas pelo território nacional. Na Região Sul, o fenômeno eleva o volume de chuvas, gerando riscos de enchentes, inundações e deslizamentos de terra. Já nas Regiões Norte e Nordeste, o cenário costuma ser de seca severa, temperaturas acima da média e maior incidência de incêndios florestais. Em Mato Grosso do Sul, o comportamento varia: o sul do estado registra chuvas acima da média, enquanto as áreas norte e oeste apresentam maior instabilidade.

As quebras na produção agrícola se desdobram em problemas logísticos para o transporte, escoamento de cargas e armazenamento da produção. O excesso de chuva danifica rodovias e estradas escoadoras, enquanto a seca severa pode afetar os reservatórios hidrelétricos e a navegação em biomas como o Pantanal. Eventos extremos também impactam o mercado consumidor urbano, pressionando os preços dos alimentos nos supermercados e gerando problemas de saúde pública, como o aumento de doenças respiratórias devido à fumaça de queimadas e a proliferação do mosquito da dengue em períodos quentes e úmidos.

Ciência e prevenção para mitigar perdas no campo

Apesar do cenário de alerta, os especialistas apontam que o El Niño traz a vantagem de ser monitorado com meses de antecedência. Isso permite que governos, comitês de bacia e produtores rurais adotem ferramentas de planejamento para mitigar os riscos econômicos e climáticos. O acompanhamento contínuo possibilita decisões assertivas antes do início da estação de cultivo.

Entre as práticas sugeridas para elevar a resiliência no campo estão o manejo adequado do solo para aumentar a retenção de água, a escolha de cultivares adaptadas ao estresse térmico, o ajuste do calendário de plantio e a instalação de sistemas de irrigação eficientes. O uso de tecnologia, como estações meteorológicas em tempo real, balanço hídrico e monitoramento da evapotranspiração, transforma dados em estratégias de mitigação para proteger a safra nacional contra extremos climáticos.