Economia

Qual o valor do impacto que o tarifaço pode ter na economia brasileira?

Sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos começa a valer nesta quarta-feira (22) e atinge mais de US$ 11 bilhões em exportações, acirrando o embate político no Congresso.

Da redação
DA REDAÇÃO

20/07/2026 • 17:37 • Atualizado em 20/07/2026 • 17:40

Setor de calçados será um dos impactados pelo novo tarifaço

Setor de calçados será um dos impactados pelo novo tarifaço

Freepik

A nova barreira comercial imposta pelos Estados Unidos contra os produtos brasileiros começa a valer oficialmente nesta quarta-feira, 22 de julho. A decisão de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre aproximadamente 3 mil itens exportados pelo Brasil atinge em cheio o comércio exterior, colocando as relações bilaterais no patamar mais restritivo das últimas décadas.

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A prática é chamada de "tarifaço", jargão econômico para designar a imposição repentina e severa de elevadas tarifas alfandegárias sobre a importação de bens. Na prática, trata-se de uma barreira protecionista em larga escala na qual um governo aplica alíquotas adicionais expressivas sobre uma ampla gama de produtos estrangeiros, com o objetivo de encarecer a entrada dessas mercadorias no país e proteger a indústria doméstica ou pressionar governos estrangeiros em negociações bilaterais.

Com impacto estimado de mais de US$ 11 bilhões em vendas externas, a medida abala setores estratégicos do país e desencadeia repercussões imediatas na atividade econômica e na política nacional.

Projeções do setor produtivo e de consultorias econômicas indicam que as tarifas adicionais podem reduzir o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro entre 0,4 e 0,6 ponto percentual.

O fluxo de caixa das exportações sofre forte retração imediata, aumentando a pressão cambial e a volatilidade do mercado financeiro. Com a menor entrada de dólares, o real tende a passar por um processo de desvalorização perante a moeda americana, o que pode impulsionar repasses inflacionários internos em insumos e bens importados.

A indústria de transformação passa a ser um dos segmentos mais afetados pela medida. Áreas de alto valor agregado, como as de calçados, têxtil, produtos químicos, papel e aços específicos, enfrentam o risco iminente de perda de espaço no mercado norte-americano devido ao aumento dos custos.

Esse encarecimento ameaça a competitividade do produto nacional e pode levar as empresas a readequações produtivas ou até mesmo ao corte de postos de trabalho no país.

A situação gerou interesse dos internautas. Nesta segunda-feira (20), que marca o início da semana na qual as novas taxas serão aplicadas, houve um aumento de 130% nas buscas em relação ao termo “tarifaço”, segundo dados do Google Trends. O interesse também foi grande no dia do anúncio das tarifas - veja o gráfico na íntegra.

Agronegócio enfrenta impacto assimétrico e atrito político cresce

Apesar de os Estados Unidos figurarem como o terceiro maior destino do agronegócio nacional, os efeitos do tarifaço dividem o setor de forma desigual. No topo da lista de vulnerabilidade estão os biocombustíveis e o açúcar orgânico, que sofrem retração de margem de lucro e reativam disputas comerciais históricas.

O segmento de madeira e derivados de celulose também enfrenta desaceleração no ritmo dos embarques para a indústria americana. Já a carne bovina perde competitividade frente a concorrentes como Austrália e Canadá.

Por outro lado, itens essenciais da pauta exportadora foram poupados ou registram impacto mínimo. O café e o suco de laranja mantêm relativa proteção por conta da elevada dependência do mercado norte-americano e da falta de substitutos locais na mesma escala, o que levou os EUA a incluírem os produtos no rol de exceções para evitar a inflação interna.

Da mesma forma, grãos como soja e milho seguem com baixíssimo risco direto, uma vez que têm a Ásia, principalmente a China, como destino prioritário.

Para mitigar as perdas na balança comercial, entidades setoriais como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Câmara Americana de Comércio (Amcham) recomendam a intensificação dos pleitos diplomáticos e o direcionamento das exportações brasileiras para mercados alternativos, como a Ásia, o Oriente Médio e a Europa.

Guerra de narrativas

A implementação da sobretaxa também intensifica as disputas políticas entre o Palácio do Planalto e a oposição. Enquanto o governo estuda aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica para sobretaxar produtos americanos e estrutura um plano de auxílio para os setores afetados, lideranças da oposição apontam que o Executivo tem feito uso político da crise comercial.

Em contrapartida, governistas acusam opositores de atuarem paralelamente nas negociações internacionais e comprometerem a soberania nacional em meio às conversas com Washington.

O pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonao afirmou que a culpa do tarifaço é do presidente Lula. Enquanto isso, o governo usa a viagem do senador até os Estados Unidos e o acusa de ter influenciado o presidente do Donald Trump a adotar as medidas.