Saúde

Uso de canetas emagrecedoras após bariátrica exige cautela, alertam médicos

Com a popularização de medicamentos como semaglutida e tirzepatida, médicos reforçam que o uso após cirurgia bariátrica exige cautela, acompanhamento rigoroso e indicação precisa

Da redação
DA REDAÇÃO

22/01/2026 • 11:24 • Atualizado em 22/01/2026 • 11:24

Resumo

O aumento do uso de “canetas emagrecedoras” como semaglutida e tirzepatida preocupa especialistas, especialmente em pacientes que passaram por cirurgia bariátrica, devido a riscos à saúde e à falta de indicação automática após o procedimento.

A internação grave de uma mulher que usou medicamento adquirido ilegalmente no Paraguai e a decisão da Anvisa de proibir e apreender produtos irregulares reforçam os perigos do uso sem prescrição médica e da compra de medicamentos sem registro sanitário.

A ausência de evidências científicas para uso precoce, os riscos nutricionais como deficiências de ferro, vitaminas e perda de massa magra, e a necessidade de acompanhamento multidisciplinar são destacados por médicos, que recomendam cautela e supervisão rigorosa no tratamento de pacientes bariátricos.

O aumento do uso das chamadas “canetas emagrecedoras” nos últimos anos tem levantado novos alertas entre especialistas em obesidade, especialmente quando esses medicamentos passam a ser utilizados por pacientes que já se submeteram à cirurgia bariátrica. Embora fármacos como semaglutida e tirzepatida sejam reconhecidos por sua eficácia no controle do peso, médicos ressaltam que o uso após o procedimento cirúrgico não é automático e pode trazer riscos importantes à saúde.

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Recentemente, o tema voltou ao centro do debate após a internação, em estado grave, de uma mulher que utilizou uma caneta para emagrecimento adquirida ilegalmente no Paraguai. O caso ocorreu em meio à decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que determinou a apreensão e a proibição da tirzepatida de marcas irregulares comercializadas no país e do retatrutida, independentemente da marca ou lote.

Segundo o órgão, os produtos são fabricados por empresas desconhecidas, não possuem registro sanitário e representam risco à saúde. O episódio reforça os perigos do uso sem prescrição médica, da compra de medicamentos de origem ilegal e da necessidade de critérios clínicos rigorosos — especialmente entre pacientes que já passaram por cirurgia bariátrica.

Quando o uso é indicado?

Segundo especialistas, medicamentos injetáveis para controle da obesidade costumam ser indicados em dois momentos específicos do tratamento: antes da cirurgia bariátrica, para reduzir riscos operatórios em pacientes com obesidade grave, ou após um período mais longo da cirurgia, geralmente depois do primeiro ou segundo ano, principalmente em casos de reganho de peso.

De acordo com o endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o uso desses medicamentos logo após a cirurgia não é uma conduta rotineira.

“O início precoce do uso de agonistas de GLP-1 ou medicamentos duais, como a tirzepatida, chama a atenção porque não é o que normalmente se recomenda. Técnicas como o bypass gástrico têm alto potencial de perda de peso, especialmente nos primeiros dois anos, quando o efeito da cirurgia é mais intenso”, explica.

Falta de evidências científicas para uso precoce

O alerta é reforçado pelo nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN). Segundo ele, ainda não existem estudos científicos robustos que sustentem o uso desses medicamentos poucos meses após a cirurgia bariátrica.

“Não há evidências que recomendem o uso desses remédios tão cedo após a cirurgia. O esperado é que o paciente perca peso de forma progressiva ao longo de até dois anos apenas com o efeito do procedimento e as mudanças no estilo de vida”, afirma.

Para os especialistas, iniciar o uso medicamentoso nesse período pode antecipar riscos sem benefícios comprovados.

Riscos nutricionais e clínicos

Além da ausência de respaldo científico, médicos chamam atenção para os riscos nutricionais da combinação entre cirurgia bariátrica e canetas emagrecedoras. Após procedimentos como o bypass gástrico, há redução significativa da ingestão calórica e da absorção de nutrientes. Quando somados aos efeitos colaterais dos medicamentos — como náuseas, vômitos e redução ainda maior do apetite —, esses fatores podem agravar deficiências nutricionais.

“Deficiências de ferro, vitamina B12, vitamina D e ácido fólico são comuns após a bariátrica. A suplementação é obrigatória e, em alguns casos, precisa ser feita por via venosa”, destaca Marcelino.

Ribas Filho também alerta para a perda de massa magra, desidratação e alterações metabólicas. “A perda de peso não envolve apenas gordura. Sem acompanhamento adequado, o paciente pode perder músculo, água, vitaminas e minerais, o que traz riscos sérios à saúde”, pontua.

Uso sem prescrição e produtos ilegais ampliam perigo

Casos envolvendo medicamentos adquiridos no mercado ilegal, como o da mulher internada após usar uma caneta trazida do Paraguai, acendem um alerta adicional. Produtos sem registro, procedência desconhecida ou armazenamento inadequado podem conter doses erradas, substâncias adulteradas ou causar reações graves.

Especialistas reforçam que qualquer uso desses medicamentos deve ocorrer exclusivamente com prescrição médica, acompanhamento contínuo e exames laboratoriais regulares, especialmente em pacientes que já passaram por cirurgia bariátrica.

Acompanhamento multidisciplinar é essencial

Apesar da crescente popularidade das canetas emagrecedoras, médicos destacam que elas não substituem o acompanhamento nutricional, psicológico e clínico no tratamento da obesidade. No caso de pacientes bariátricos, a decisão de usar ou não esses medicamentos deve ser individualizada, baseada em critérios médicos claros e sempre conduzida por uma equipe multidisciplinar.

“O tratamento da obesidade é complexo e contínuo. Após a cirurgia, qualquer intervenção adicional precisa ser feita com cautela, responsabilidade e ciência”, concluem os especialistas.

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