Resumo
Descoberta da molécula decisteína representa avanço no tratamento do câncer ao eliminar células tumorais e preservar tecidos saudáveis, segundo o médico Cristovam Scapulatempo; a pesquisa, publicada na revista Nature, destaca a seletividade da substância, que atua especialmente em tumores agressivos e foi inicialmente testada em câncer de mama.
Desenvolvimento do medicamento ainda está em fase pré-clínica, com necessidade de testes em humanos para confirmar eficácia e segurança; enquanto isso, imunoterapia como o pembrolizumabe já começa a ser produzida no Brasil pelo Instituto Butantan em parceria com a MSD, com expectativa de chegada ao SUS para tratar até 40 tipos de câncer.
Implementação da imunoterapia no sistema público priorizará tumores de pulmão, esôfago, mama e colo uterino, com exames de imuno-histoquímica sendo essenciais para identificar pacientes aptos ao tratamento; transferência de tecnologia para o Butantan e possível queda de custos após expiração da patente são vistos como marcos para o acesso e para a economia nacional.
A ciência deu passos largos na busca por tratamentos mais assertivos e menos invasivos para o câncer. O grande destaque é a descoberta da decisteína, uma molécula capaz de eliminar células tumorais preservando os tecidos saudáveis. De acordo com o médico Cristovam Scapulatempo, a decisteína é um isômero estrutural da cisteína que atua diretamente no "motor" da célula doente.
“Quando a célula tumoral internaliza essa molécula, ela para a respiração celular. Parando a respiração celular, a célula morre”, explica o especialista. O grande diferencial está na seletividade: a entrada da molécula ocorre por meio de um transportador superexpresso, que existe em abundância nas células tumorais mas é escasso nas normais.
“Quanto mais agressivo é o tumor, maior a quantidade de energia ele precisa para se dividir e crescer”, afirma Scapulatempo, ressaltando que essa fome por energia aumenta a eficácia potencial do tratamento. Publicada na revista Nature, a pesquisa focou inicialmente em linhagens de câncer de mama, mas as perspectivas se estendem a outros tipos da doença.
O caminho entre o laboratório e o paciente
Apesar do entusiasmo, Scapulatempo mantém os pés no chão quanto aos prazos. O estudo ainda está em fase pré-clínica. Somente os testes de fase 1 e 2 em humanos poderão confirmar se a decisteína se tornará um medicamento comercial. “Por mais que os estudos pré-clínicos sejam maravilhosos, o sucesso de moléculas testadas é muito baixo”, alerta o médico. A cautela é necessária para gerenciar as expectativas de pacientes e familiares enquanto a ciência cumpre seus rigorosos protocolos de segurança.
Enquanto novas moléculas são testadas, uma realidade já consolidada na rede privada começa a chegar ao sistema público: a imunoterapia. Uma parceria entre o Instituto Butantan e a farmacêutica MSD garantirá a fabricação nacional de um medicamento indicado para até 40 tipos de câncer.
“Esse medicamento chegando ao SUS é uma grande vitória para nossa população. Estamos muito esperançosos que possamos melhorar as taxas de resposta e sobrevida dos nossos pacientes”, celebra o médico.
Diferente da quimioterapia tradicional, o imunoterápico, como o pembrolizumabe, não ataca o tumor diretamente. Ele atua "destravando" as defesas do próprio corpo. “Os cânceres expressam uma molécula que engana o seu linfócito para não atacar o tumor. Quando o nosso sistema imunológico ataca, as respostas são fantásticas e duradouras”, detalha Scapulatempo.
O futuro do tratamento no Brasil
No Brasil, as primeiras indicações no SUS contemplarão casos de câncer de pulmão, esôfago, mama e colo uterino. Estudos internacionais já comprovam que o uso da imunoterapia neoadjuvante (antes da cirurgia) em estágios iniciais aumenta significativamente a sobrevida.
Para que o tratamento seja eficaz, o Dr. Scapulatempo reforça a importância da medicina de precisão: exames de imuno-histoquímica para o marcador PD-L1 são essenciais para identificar quais pacientes realmente responderão à terapia. Além disso, a transferência de tecnologia para o Butantan é vista como um marco econômico.
“A patente acaba daqui a dois anos, então, teoricamente, a tendência é o custo cair”, projeta o especialista. Para milhares de brasileiros que dependem exclusivamente do SUS, esses avanços representam não apenas ciência de ponta, mas uma chance real de cura e dignidade no tratamento oncológico.

