Saúde

Pai obeso pode transmitir pré-diabetes ao filho; estudo da Unicamp explica

Pesquisa com participação da Unicamp mostra que moléculas no espermatozoide transmitem disfunção metabólica, mas perda de peso antes da concepção elimina o risco

Da redação
DA REDAÇÃO

03/04/2026 • 15:25 • Atualizado em 03/04/2026 • 15:25

Prole de machos obesos nascia com peso normal, mas com o passar dos dias apresentava um quadro de intolerância à glicose e resistência à insulina

Prole de machos obesos nascia com peso normal, mas com o passar dos dias apresentava um quadro de intolerância à glicose e resistência à insulina

AgênciaSP

A ciência já sabia que o estilo de vida dos pais influencia a saúde das próximas gerações, mas um novo estudo publicado na revista Nature Communications acaba de decifrar o "código" por trás dessa herança. Pesquisadores descobriram que a obesidade paterna altera moléculas específicas nos espermatozoides, programando os filhos para desenvolverem doenças como o diabetes tipo 2, mesmo que nasçam com peso normal.

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A investigação foi coordenada pelo bioquímico Jan-Wilhelm Kornfeld, da Universidade do Sul da Dinamarca, e contou com a colaboração fundamental de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), liderados pelo professor Marcelo Mori.

A "disfunção metabólica silenciosa"

Nos experimentos realizados com camundongos, os cientistas observaram um fenômeno intrigante: os filhotes de machos obesos nasciam com aparência saudável e peso adequado. No entanto, com o passar do tempo, esses descendentes apresentavam intolerância à glicose e resistência à insulina.

O estudo identificou que o "vilão" dessa história é um tipo de microRNA chamado let-7.

  • O excesso no tecido adiposo: Homens (e roedores) obesos produzem essa molécula em excesso na gordura corporal.
  • A viagem ao sêmen: O let-7 acaba migrando para os espermatozoides e é transmitido ao embrião no momento da fecundação.
  • Bloqueio celular: Dentro do embrião, essa molécula inibe a enzima DICER, essencial para o funcionamento das mitocôndrias (as usinas de energia das células).

De acordo com o professor Marcelo Mori, essa falha reprograma permanentemente como o corpo do filho lidará com a energia, criando uma predisposição ao diabetes na fase adulta.

Homens ou. mulheres: quem é mais afetado?

Os resultados mostraram que os filhos do sexo masculino são mais vulneráveis a essa herança metabólica. "As mulheres são metabolicamente mais resilientes", explicou Kornfeld à Agência FAPESP. Embora as fêmeas também apresentassem uma tendência à disfunção, os sintomas eram muito mais pronunciados nos machos.

O ponto mais importante do estudo para a saúde pública é a prova de que essa "marca" negativa no sêmen não é permanente. Quando os pais perdem peso antes da concepção, o quadro muda completamente. "Os resultados mostram que, quanto mais o indivíduo perdia peso, menores eram os níveis de let-7 no sêmen", afirma Mori.

Os cientistas validaram a descoberta em humanos analisando 15 homens com obesidade severa. Após seis meses de reeducação alimentar e mudança no estilo de vida, os níveis da molécula nociva no esperma caíram drasticamente. Nos testes com animais, os filhotes gerados após o emagrecimento do pai nasceram tão saudáveis quanto os de pais que nunca foram obesos.

O sêmen como reflexo da saúde

A descoberta reforça a importância do planejamento reprodutivo masculino. Assim como o pré-natal materno é amplamente difundido, os especialistas sugerem que a saúde do pai no momento da concepção é um pilar crucial para o bem-estar da criança.

Tudo indica que o esperma funciona como um termômetro da saúde do homem: se o organismo está em desequilíbrio — por estresse, infecções ou má alimentação —, as chances de transmitir predisposições a doenças aumentam.

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