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El Niño ameaça agricultura mundial com risco de risco de seca extrema

A Organização das Nações Unidas mapeou regiões vulneráveis e prevê impactos na produção de alimentos nas áreas de pastagem nos próximos meses

VIVIANE TAGUCHI

24/06/2026 • 14:31 • Atualizado em 24/06/2026 • 14:31

El niño no segundo semestre pode comprometer a safrinha e toda a produção no próximo ano

El niño no segundo semestre pode comprometer a safrinha e toda a produção no próximo ano

Gerada por IA

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) emitiu um alerta global sobre o início iminente de uma nova fase do fenômeno climático El Niño. De acordo com a instituição, o evento deve começar dentro de poucas semanas e ameaça colocar o setor agrícola mundial em estado de atenção máxima. O alerta surge em um momento de alta fragilidade produtiva em diversos continentes.

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No Brasil, a previsão aponta que o segundo semestre deve ter forte influência do El Niño, com chuvas em excesso na região Sul e seca muito severa nas regiões norte e nordeste. Segundo análise da Consultoria Agro Itaú BBA, existe elevada probabilidade de ocorrência de um evento “forte a muito forte” nos próximos meses, e o cenário que pode provocar alterações significativas na produção de grãos, açúcar, café, frutas e outras culturas estratégicas.

Os pesquisadores da FAO baseiam a análise em imagens de satélite coletadas nas últimas quatro décadas. Esse histórico detalhado permitiu identificar as áreas agrícolas onde os episódios mais intensos tendem a provocar estiagens severas. O objetivo do mapeamento é antecipar os choques climáticos e proteger o abastecimento.

Especialistas da Organização Meteorológica Mundial (OMM) antecipam um ciclo deste evento mais intenso do que o habitual. O aquecimento global potencializa os efeitos do fenômeno, tornando as variações de temperatura mais destrutivas. Diante disso, os sistemas agrícolas enfrentam pressões inéditas.

Os riscos para as lavouras são mais elevados no Sahel, em toda a África Austral, no Sul e no Sudeste Asiático. O mesmo cenário crítico afeta o Corredor Seco da América Central e a região do Caribe. Algumas áreas de cultivo e pastagem enfrentam probabilidade superior a 50% de ocorrência de seca nos próximos meses.

Vulnerabilidade estrutural e segurança alimentar

Muitas regiões agrícolas sob risco já sofreram impactos severos durante os episódios anteriores do fenômeno, registrados entre 2015 e 2024. A recorrência desses eventos meteorológicos extremos evidencia as fragilidades estruturais das comunidades rurais. Sem tempo para recuperação, os produtores enfrentam crises em série.

O avanço da estiagem prolongada provoca consequências diretas, como colheitas frustradas e perdas expressivas de rebanhos. Esses prejuízos resultam no aumento do endividamento das famílias do campo e em movimentos migratórios forçados. A economia das nações dependentes do setor primário também sofre forte retração.

Análises conjuntas conduzidas pela FAO e pelo Programa Mundial de Alimentos (WFP) destacam como os choques climáticos agravam a insegurança alimentar aguda. O cruzamento de incidentes meteorológicos com conflitos armados e pressões econômicas amplia os riscos de fome generalizada.

O responsável por recursos naturais da FAO, Jorge Alvar-Beltrán, ressalta que o atual cenário global dificulta a resposta dos países atingidos. A vulnerabilidade prévia reduz a capacidade das comunidades de absorver novos impactos na produção agrícola.

"O planeta está muito mais quente hoje e, com conflitos e insegurança alimentar generalizados, esta nova fase atingirá mais duramente os locais que já são vulneráveis e têm capacidade limitada de resposta", afirma Alvar-Beltrán.

Planejamento preventivo e ações integradas no campo

O monitoramento tecnológico atual alcançou um nível de precisão capaz de reduzir a avaliação de risco a um único quilômetro quadrado. No entanto, transformar dados de satélite em proteção real exige a articulação rápida de serviços meteorológicos e ministérios da agricultura. As redes de extensão rural — serviços que levam assistência técnica diretamente ao produtor — desempenham papel crucial na transmissão dos avisos.

O detalhamento minucioso das informações altera profundamente o que um governo pode fazer para mitigar os prejuízos. A previsibilidade permite que os Estados abandonem reações tardias e adotem políticas de proteção ativa antes do agravamento da estiagem.

De acordo com relatórios da organização, a estratégia ideal consiste em concentrar o apoio financeiro e técnico diretamente nos pontos críticos mapeados. Essa abordagem racional evita a dispersão ineficaz de recursos públicos em momentos de crise humanitária e econômica.

Brasil no centro das preocupações

A safra agrícola 2026/2027 no Brasil deve enfrentar forte instabilidade climática por causa do fenômeno El Niño, gerando preocupação entre produtores rurais e analistas do setor nas principais regiões produtoras do país.

O Brasil ocupa uma posição altamente estratégica no abastecimento mundial de grãos. Por esse motivo, qualquer alteração climática relevante nas lavouras nacionais gera reflexos imediatos nos preços das commodities agrícolas negociadas no ambiente internacional.

As áreas produtoras do Centro-Oeste e do MATOPIBA (região que abrange o Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) devem registrar forte irregularidade no regime de chuvas. Além da falta de umidade regular, essas localidades podem registrar veranicos prolongados. O termo técnico veranico refere-se a períodos de estiagem acompanhados de calor excessivo que ocorrem em plena estação chuvosa, prejudicando o crescimento das plantas.

As temperaturas acima da média histórica também devem atingir lavouras localizadas em partes das regiões Norte e Nordeste. Esse cenário eleva o estresse térmico das culturas agrícolas durante o ciclo produtivo atual.

Por outro lado, os estados da Região Sul do Brasil apresentam uma tendência climática completamente oposta. As estimativas meteorológicas oficiais indicam que a colheita nessa parte do país tende a registrar volumes de precipitação muito superiores à média histórica. A abundância de água pode beneficiar o desenvolvimento de algumas culturas específicas na região. Contudo, o excesso de umidade também eleva substancialmente os riscos de enchentes repentinas, excesso de umidade e a incidência de doenças fúngicas nas plantações.