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Ação dos EUA carrega atitude colonialista e prepotente, diz Trevisan

O historiador critica a postura de Donald Trump ao desqualificar Maria Corina Machado e traça paralelos com fracassos militares no Iraque e Afeganistão.

Da redação
DA REDAÇÃO

04/01/2026 • 21:07 • Atualizado em 04/01/2026 • 21:07

Donald Trump

Donald Trump

REUTERS/Jonathan Ernst

O professor de relações internacionais Leonardo Trevisan afirmou, em debate no Canal Livre, que a postura dos Estados Unidos em relação à crise na Venezuela carrega uma "atitude colonialista e prepotente". Trevisan questionou a eficácia de intervenções estrangeiras para a construção de regimes democráticos, citando exemplos históricos recentes em que a estratégia americana resultou em desastres humanitários e políticos.

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Para o analista, o discurso de que os Estados Unidos estariam agindo para "salvar a democracia" venezuelana entra em contradição com o histórico de intervenções da Casa Branca. O historiador ressaltou que tentativas de impor democracias à força raramente prosperam, servindo apenas para desestabilizar ainda mais as regiões afetadas.

Os paralelos com Iraque e Afeganistão

Trevisan foi incisivo ao recordar conflitos em que os Estados Unidos adotaram posturas semelhantes de intervenção direta. Ele mencionou as guerras no Iraque e no Afeganistão como provas de que a força militar não é capaz de estabelecer bases democráticas sólidas, resultando em crises prolongadas.

"A história ensina alguma coisa para nós. Os Estados Unidos já fizeram isso. Vamos lembrar duas palavrinhas: Iraque e Afeganistão. Deu no que deu", alertou o professor. Ele ainda pontuou que o cenário poderia ser comparado ao Vietnã, o que classificou como um exemplo ainda mais grave de fracasso na política externa americana.

A crítica sugere que, ao ignorar os erros do passado, o governo de Donald Trump corre o risco de mergulhar a Venezuela e a América Latina em um ciclo de instabilidade que dificilmente será resolvido por meio de pressões externas.

A desqualificação de Maria Corina Machado

Outro ponto de forte crítica de Trevisan foi a declaração do presidente Trump sobre Maria Corina Machado, principal liderança da oposição venezuelana. Segundo o historiador, Trump afirmou que não quer Corina no processo por considerar que ela "não tem o respeito do povo venezuelano", ignorando o fato de ela ter sido a vencedora moral e política das eleições.

"Desculpe, foi ela que ganhou a eleição. O que nós vamos fazer com isso? Nós vamos construir uma democracia que nem a Maria Corina serve?", questionou Trevisan. Para ele, essa postura revela que o interesse americano não é o respeito à vontade popular venezuelana, mas sim a imposição de um modelo ou líder que seja conveniente aos interesses de Washington.

A incoerência na defesa da democracia

A análise final de Leonardo Trevisan aponta para uma profunda contradição na diplomacia americana. Ao desconsiderar a principal figura eleita pela oposição e planejar intervenções baseadas na força, os Estados Unidos estariam ferindo os próprios princípios democráticos que afirmam defender.

O historiador conclui que o cenário atual é "inimaginável" e perigoso, pois substitui o direito à soberania e o reconhecimento do voto popular por uma estratégia de "transação" política ditada por potências estrangeiras. Na visão de Trevisan, o futuro da Venezuela corre o risco de ser decidido em escritórios em Washington, e não nas urnas venezuelanas.

Entenda a ofensiva dos EUA contra a Venezuela

Os Estados Unidos realizaram na madrugada de 3 de janeiro uma operação militar contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores. A ação provocou bombardeios em pontos estratégicos do país, um apagão em Caracas e levou o governo venezuelano a declarar estado de emergência, acusando Washington de violação de soberania

Horas depois, o presidente americano Donald Trump confirmou o ataque e afirmou que Maduro foi detido por forças dos EUA. Em declarações posteriores, Trump confirmou que o líder venezuelano foi levado para Nova York, nos Estados Unidos, para ser julgado por acusações de terrorismo e tráfico de drogas.

Em entrevista coletiva, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão governar a Venezuela após a captura de Maduro, declaração que ampliou a reação internacional e levantou questionamentos sobre uma possível ocupação ou administração provisória do país.

O presidente americano também afirmou que a ofensiva teve como um de seus objetivos a recuperação de petróleo que teria sido retirado dos Estados Unidos pelo regime venezuelano. Segundo Trump, o recurso foi tomado “como doce de bebê”, expressão usada por ele para justificar a intervenção e reforçar o discurso de prejuízo econômico aos EUA.

Ele também disse que a captura de Maduro serve como alerta a outros líderes que desrespeitem os interesses dos EUA. Trump declarou ainda que a Venezuela será “reconstruída” com recursos do petróleo recuperado pelos EUA, reforçando a ideia de controle econômico sobre Caracas.

Durante a ofensiva, bombardeios provocaram um apagão em Caracas, segundo autoridades locais, e aeronaves militares americanas foram registradas sobrevoando o território venezuelano.

Após o anúncio da captura, a vice-presidente da Venezuela exigiu provas de vida de Maduro, enquanto o governo chavista solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU.

Trump afirmou que acompanhou a operação em tempo real e comparou a ação a um “reality show”. Mais tarde, a Casa Branca divulgou uma imagem de Maduro sob custódia, sendo levado aos Estados Unidos.

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Na Venezuela, a captura do presidente aprofundou a instabilidade política e econômica. Houve corrida a mercados, e setores da oposição, representados pela líder da oposição, María Corina, passaram a defender uma transição de poder, enquanto cresce a incerteza sobre a condução do país.

A operação recebeu apoio de aliados do governo Trump. O vice-presidente americano afirmou que os ataques se justificam por um suposto “roubo de petróleo” por parte do regime venezuelano.

Em reação, líderes internacionais criticaram a ofensiva. A Rússia condenou a ação e classificou a operação como uma agressão armada.

No Brasil, o governo Lula criticou duramente a ofensiva, afirmando que a captura de um chefe de Estado estrangeiro ultrapassa os limites do direito internacional. O país elevou o nível de alerta militar no Norte, embora o Itamaraty tenha informado que a situação na fronteira segue normal.

Analistas avaliam que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela representa uma escalada sem precedentes e pode redefinir o equilíbrio político na América Latina.