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EUA têm “fórmula” histórica em intervenções militares, avalia especialista

As operações militares conduzidas pelos Estados Unidos neste fim de semana reacenderam o debate sobre a soberania das nações e o papel da diplomacia

Emanuele Braga
EMANUELE BRAGA

04/01/2026 • 13:53 • Atualizado em 04/01/2026 • 13:53

Trump, presidente dos Estados Unidos

Trump, presidente dos Estados Unidos

Win McNamee/Pool via REUTERS

As operações militares conduzidas pelos Estados Unidos neste fim de semana — que resultaram na captura de Nicolás Maduro na Venezuela — reacenderam o debate sobre a soberania das nações e o papel da diplomacia. Para o Professor Sidney Leite, especialista em Relações Internacionais da USP, esses episódios não são acasos, mas sim a aplicação de um padrão histórico norte-americano de três séculos.

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A "fórmula" da intervenção

De acordo com o professor, existe uma tipologia recorrente na política externa dos EUA. Ao analisarmos a captura de Maduro no último sábado (03), é possível identificar as etapas que o governo Trump seguiu:

Construção da ameaça: O primeiro passo é identificar uma ameaça (real ou potencial). No caso atual, o "narcoterrorismo" e a imigração ilegal servem como o perigo iminente.

Justificativa moral e jurídica: Cria-se uma narrativa de autodefesa. "A autodefesa funciona como uma narrativa de estratégia política que busca se respaldar no direito interno e internacional", explica Leite. É o que Trump fez ao afirmar que agiu dentro dos princípios legais para proteger o território americano.

Ação direta: A intervenção militar para remoção do alvo ou neutralização da ameaça.

Reorganização: O momento em que os EUA tentam reconstruir a política e a economia do país alvo sob sua influência, o que o professor prevê que acontecerá agora na Venezuela.

Imperialismo informal

Sidney destaca que o imperialismo americano é diferente do modelo clássico (como o inglês), que buscava apenas a ocupação de terras. Os EUA operam um imperialismo hegemônico: eles buscam o domínio econômico, cultural e alianças com forças locais para estabelecer bases financeiras.

"Os Estados Unidos se colocam como guardiões de uma ordem internacional, mas eles querem exercer esse caráter policialístico de uma forma unilateral, principalmente no atual governo Trump", afirma Leite, apontando o paradoxo central da política externa de Washington.

Este padrão remete à Doutrina Monroe do século XIX ("América para os americanos") e à política do Big Stick (Grande Porrete). "Qualquer governo que tivesse uma política desinteressante aos Estados Unidos sofria intervenção, ocupação ou substituição", afirma o professor.

Para Sidney Leite, isso expõe uma contradição estrutural: os Estados Unidos se apresentam como os "guardiões da ordem mundial", mas exercem um papel policialesco de forma unilateral. O professor ressalta que essa dominação não é apenas militar, mas também cultural, usando ferramentas como o cinema para projetar poder e legitimar suas ações perante a opinião pública mundial.

Reunião de emergência

Com a crise instalada, o Conselho de Segurança da ONU se reúne nesta segunda-feira (05). O foco será discutir as consequências dessa ação direta promovida por Trump e até que ponto o discurso de "autodefesa" pode continuar sendo usado para sobrepor o direito internacional.

Entenda a ofensiva dos EUA contra a Venezuela

Os Estados Unidos realizaram na madrugada de 3 de janeiro uma operação militar contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores. A ação provocou bombardeios em pontos estratégicos do país, um apagão em Caracas e levou o governo venezuelano a declarar estado de emergência, acusando Washington de violação de soberania

Horas depois, o presidente americano Donald Trump confirmou o ataque e afirmou que Maduro foi detido por forças dos EUA. Em declarações posteriores, Trump confirmou que o líder venezuelano foi levado para Nova York, nos Estados Unidos, para ser julgado por acusações de terrorismo e tráfico de drogas.

Em entrevista coletiva, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão governar a Venezuela após a captura de Maduro, declaração que ampliou a reação internacional e levantou questionamentos sobre uma possível ocupação ou administração provisória do país.

O presidente americano também afirmou que a ofensiva teve como um de seus objetivos a recuperação de petróleo que teria sido retirado dos Estados Unidos pelo regime venezuelano. Segundo Trump, o recurso foi tomado “como doce de bebê”, expressão usada por ele para justificar a intervenção e reforçar o discurso de prejuízo econômico aos EUA.

Ele também disse que a captura de Maduro serve como alerta a outros líderes que desrespeitem os interesses dos EUA. Trump declarou ainda que a Venezuela será “reconstruída” com recursos do petróleo recuperado pelos EUA, reforçando a ideia de controle econômico sobre Caracas.

Durante a ofensiva, bombardeios provocaram um apagão em Caracas, segundo autoridades locais, e aeronaves militares americanas foram registradas sobrevoando o território venezuelano.

Após o anúncio da captura, a vice-presidente da Venezuela exigiu provas de vida de Maduro, enquanto o governo chavista solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU.

Trump afirmou que acompanhou a operação em tempo real e comparou a ação a um “reality show”. Mais tarde, a Casa Branca divulgou uma imagem de Maduro sob custódia, sendo levado aos Estados Unidos.

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Na Venezuela, a captura do presidente aprofundou a instabilidade política e econômica. Houve corrida a mercados, e setores da oposição, representados pela líder da oposição, María Corina, passaram a defender uma transição de poder, enquanto cresce a incerteza sobre a condução do país.

A operação recebeu apoio de aliados do governo Trump. O vice-presidente americano afirmou que os ataques se justificam por um suposto “roubo de petróleo” por parte do regime venezuelano.

Em reação, líderes internacionais criticaram a ofensiva. A Rússia condenou a ação e classificou a operação como uma agressão armada.

No Brasil, o governo Lula criticou duramente a ofensiva, afirmando que a captura de um chefe de Estado estrangeiro ultrapassa os limites do direito internacional. O país elevou o nível de alerta militar no Norte, embora o Itamaraty tenha informado que a situação na fronteira segue normal.

Analistas avaliam que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela representa uma escalada sem precedentes e pode redefinir o equilíbrio político na América Latina.