Jornal da Band

Ascensão e queda da Venezuela: como o chavismo levou o país ao colapso

A trajetória do regime socialista iniciado por Hugo Chávez há 25 anos enfrenta seu momento mais crítico com o isolamento de Nicolás Maduro.

Márcio Campos
MÁRCIO CAMPOS

03/01/2026 • 18:52 • Atualizado em 03/01/2026 • 18:52

Bandeira da Venezuela

Bandeira da Venezuela

Mariana Nedelcu/Reuters

A caputura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos pode representar o capítulo final do chavismo, regime estabelecido na Venezuela há mais de duas décadas. O ciclo político, iniciado com a posse de Hugo Chávez em 1999, transformou radicalmente a estrutura social e econômica do país sob a bandeira do "Socialismo do Século XXI", mas hoje entrega uma nação mergulhada em colapso financeiro e repressão política.

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A base do movimento começou a ser desenhada dezesseis anos antes da chegada ao poder, quando Chávez fundou o Movimento Bolivariano Revolucionário.

Segundo a análise de Paulo Velasco, professor de relações internacionais, a ascensão de Chávez foi pautada por um discurso de ruptura radical, com forte viés anti-imperialista no cenário externo e mudanças drásticas na política interna venezuelana.

Do "exproprie-se" ao desabastecimento generalizado

O grito de guerra "exproprie-se" tornou-se o símbolo da gestão de Hugo Chávez. O governo confiscou prédios, terras e promoveu a estatização de setores estratégicos, como petróleo, gás e telecomunicações. Essa política resultou no fechamento de milhares de empresas privadas e veículos de comunicação, consolidando um cenário de censura institucionalizada.

A crise econômica aprofundou-se nos últimos anos de Chávez, impulsionada pela queda global nos preços do petróleo, principal fonte de receita do país. Com a economia fragilizada, a Venezuela buscou alianças ideológicas e comerciais mais estreitas com países como Cuba, Irã e Rússia, afastando-se das democracias ocidentais.

Denúncias de narcotráfico e crise humanitária

A gestão do chavismo também foi marcada por graves denúncias de corrupção. Em reportagens especiais para o Jornal da Band, o repórter Sandro Barboza revelou que a imprensa independente já apontava o envolvimento de militares do alto escalão com o narcotráfico internacional. Entre os suspeitos citados está o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, com base em denúncias do ex-chefe de segurança Leamsy Salazar.

Após a morte de Chávez em 2013, o então vice Nicolás Maduro assumiu o comando. Sob sua gestão, o país entrou em colapso total. O repórter Yan Boechat mostrou a realidade da fome nas ruas: uma bandeja de gordura e ossos de porco chegou a custar 25% do salário mínimo local. Sem produção interna, a Venezuela passou a depender da importação de quase tudo o que consome, mas sem recursos para pagar as dívidas.

O controle do poder e a repressão política

Nicolás Maduro manteve-se no cargo após três eleições contestadas pela oposição e por observadores internacionais. Para garantir a permanência, o ditador ampliou seus poderes ao assumir o controle total do Congresso e do Poder Judiciário venezuelano.

A repressão tornou-se a ferramenta de manutenção do regime. Opositores enfrentam condições de isolamento total em prisões, descritas como mecanismos de tortura onde não é permitido sequer o acesso à luz solar. Em 2024, uma nova eleição sem a apresentação das atas de votação tentou garantir o mandato de Maduro até 2031.

Para Paulo Velasco, a Venezuela perdeu-se em abusos políticos e repressão, resultando em uma deterioração clara da democracia. O país, que já foi um dos mais ricos da América Latina, hoje sobrevive sob o peso de uma crise humanitária sem precedentes e um isolamento internacional crescente.

Entenda a ofensiva dos EUA contra a Venezuela

Os Estados Unidos realizaram na madrugada de 3 de janeiro uma operação militar contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores. A ação provocou bombardeios em pontos estratégicos do país, um apagão em Caracas e levou o governo venezuelano a declarar estado de emergência, acusando Washington de violação de soberania

Horas depois, o presidente americano Donald Trump confirmou o ataque e afirmou que Maduro foi detido por forças dos EUA. Em declarações posteriores, Trump confirmou que o líder venezuelano foi levado para Nova York, nos Estados Unidos, para ser julgado por acusações de terrorismo e tráfico de drogas.

Em entrevista coletiva, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão governar a Venezuela após a captura de Maduro, declaração que ampliou a reação internacional e levantou questionamentos sobre uma possível ocupação ou administração provisória do país.

O presidente americano também afirmou que a ofensiva teve como um de seus objetivos a recuperação de petróleo que teria sido retirado dos Estados Unidos pelo regime venezuelano. Segundo Trump, o recurso foi tomado “como doce de bebê”, expressão usada por ele para justificar a intervenção e reforçar o discurso de prejuízo econômico aos EUA.

Ele também disse que a captura de Maduro serve como alerta a outros líderes que desrespeitem os interesses dos EUA. Trump declarou ainda que a Venezuela será “reconstruída” com recursos do petróleo recuperado pelos EUA, reforçando a ideia de controle econômico sobre Caracas.

Durante a ofensiva, bombardeios provocaram um apagão em Caracas, segundo autoridades locais, e aeronaves militares americanas foram registradas sobrevoando o território venezuelano.

Após o anúncio da captura, a vice-presidente da Venezuela exigiu provas de vida de Maduro, enquanto o governo chavista solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU.

Trump afirmou que acompanhou a operação em tempo real e comparou a ação a um “reality show”. Mais tarde, a Casa Branca divulgou uma imagem de Maduro sob custódia, sendo levado aos Estados Unidos.

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Na Venezuela, a captura do presidente aprofundou a instabilidade política e econômica. Houve corrida a mercados, e setores da oposição, representados pela líder da oposição, María Corina, passaram a defender uma transição de poder, enquanto cresce a incerteza sobre a condução do país.

A operação recebeu apoio de aliados do governo Trump. O vice-presidente americano afirmou que os ataques se justificam por um suposto “roubo de petróleo” por parte do regime venezuelano.

Em reação, líderes internacionais criticaram a ofensiva. A Rússia condenou a ação e classificou a operação como uma agressão armada.

No Brasil, o governo Lula criticou duramente a ofensiva, afirmando que a captura de um chefe de Estado estrangeiro ultrapassa os limites do direito internacional. O país elevou o nível de alerta militar no Norte, embora o Itamaraty tenha informado que a situação na fronteira segue normal.

Analistas avaliam que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela representa uma escalada sem precedentes e pode redefinir o equilíbrio político na América Latina.