O professor de relações internacionais Leonardo Trevisan afirmou, em debate no programa Canal Livre, que o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro pode ter sido "entregue como um troféu" para o governo de Donald Trump. Segundo o analista, o poder real na Venezuela nunca esteve plenamente nas mãos de Maduro, mas sim sob o controle dos militares, que teriam facilitado sua queda para destravar negociações internacionais.
Trevisan destacou que Maduro, originário do setor sindical, funcionava como uma peça de equilíbrio entre as forças armadas, sem possuir uma base de poder própria e independente. Para o historiador, a saída de Maduro não foi apenas fruto de pressão externa, mas uma decisão interna pragmática para salvar a estrutura política venezuelana.
O papel do petróleo e a queda de braço com Trump
Um dos pontos centrais da análise de Trevisan foi a relação entre a petrolífera Chevron e o governo americano. O especialista revelou que, apenas uma semana antes de enviar destróieres para o Mar do Caribe, Trump havia autorizado o fim de sanções à empresa se ela negociasse diretamente com a Venezuela.
A crise teria escalado quando Maduro tentou "subir o preço" da negociação, acreditando que os Estados Unidos dependiam do petróleo venezuelano. "O Trump ficou bravo. Uma semana depois, os navios estavam no mar", explicou Trevisan. O analista avalia que Maduro percebeu tarde demais o erro estratégico e, ao tentar recuar, já havia perdido sua utilidade para os negociadores.
A entrega de Maduro e o protagonismo militar
A análise do historiador reforça a tese de que Maduro foi isolado por seus próprios aliados internos. Citando análises da revista The Economist, Trevisan defendeu que o ditador foi entregue para permitir que as negociações entre Venezuela e Estados Unidos recomeçassem do zero, sem o ônus da figura desgastada de Maduro.
"O poder de fato na Venezuela está com os militares. Maduro servia como alguém para equilibrar poderes entre militares que não querem ninguém que chegue", afirmou o professor. Com a saída do líder chavista, o caminho ficou livre para uma transição pragmática, liderada por figuras com maior trânsito internacional.
Delcy Rodríguez e o novo cenário de negociação
Com a queda de Maduro, Leonardo Trevisan aponta Delcy Rodríguez como a figura-chave para o momento de transição. Diferente de Maduro, Delcy possui formação acadêmica internacional e um perfil mais técnico, o que facilitaria o diálogo com o governo Trump e com o mercado global.
Para o analista, Trump, conhecido por seu perfil negociador, identificou que era mais fácil sentar à mesa com alguém que conhece o mundo e organizou a economia interna. O historiador conclui que as razões para o desfecho da crise venezuelana devem ser buscadas dentro do próprio país, onde a sobrevivência do grupo político no poder falou mais alto do que a lealdade ao antigo ditador.
Entenda a ofensiva dos EUA contra a Venezuela
Os Estados Unidos realizaram na madrugada de 3 de janeiro uma operação militar contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores. A ação provocou bombardeios em pontos estratégicos do país, um apagão em Caracas e levou o governo venezuelano a declarar estado de emergência, acusando Washington de violação de soberania
Horas depois, o presidente americano Donald Trump confirmou o ataque e afirmou que Maduro foi detido por forças dos EUA. Em declarações posteriores, Trump confirmou que o líder venezuelano foi levado para Nova York, nos Estados Unidos, para ser julgado por acusações de terrorismo e tráfico de drogas.
Em entrevista coletiva, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão governar a Venezuela após a captura de Maduro, declaração que ampliou a reação internacional e levantou questionamentos sobre uma possível ocupação ou administração provisória do país.
O presidente americano também afirmou que a ofensiva teve como um de seus objetivos a recuperação de petróleo que teria sido retirado dos Estados Unidos pelo regime venezuelano. Segundo Trump, o recurso foi tomado “como doce de bebê”, expressão usada por ele para justificar a intervenção e reforçar o discurso de prejuízo econômico aos EUA.
Ele também disse que a captura de Maduro serve como alerta a outros líderes que desrespeitem os interesses dos EUA. Trump declarou ainda que a Venezuela será “reconstruída” com recursos do petróleo recuperado pelos EUA, reforçando a ideia de controle econômico sobre Caracas.
Durante a ofensiva, bombardeios provocaram um apagão em Caracas, segundo autoridades locais, e aeronaves militares americanas foram registradas sobrevoando o território venezuelano.
Após o anúncio da captura, a vice-presidente da Venezuela exigiu provas de vida de Maduro, enquanto o governo chavista solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU.
Trump afirmou que acompanhou a operação em tempo real e comparou a ação a um “reality show”. Mais tarde, a Casa Branca divulgou uma imagem de Maduro sob custódia, sendo levado aos Estados Unidos.

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito: Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump
Na Venezuela, a captura do presidente aprofundou a instabilidade política e econômica. Houve corrida a mercados, e setores da oposição, representados pela líder da oposição, María Corina, passaram a defender uma transição de poder, enquanto cresce a incerteza sobre a condução do país.
A operação recebeu apoio de aliados do governo Trump. O vice-presidente americano afirmou que os ataques se justificam por um suposto “roubo de petróleo” por parte do regime venezuelano.
Em reação, líderes internacionais criticaram a ofensiva. A Rússia condenou a ação e classificou a operação como uma agressão armada.
No Brasil, o governo Lula criticou duramente a ofensiva, afirmando que a captura de um chefe de Estado estrangeiro ultrapassa os limites do direito internacional. O país elevou o nível de alerta militar no Norte, embora o Itamaraty tenha informado que a situação na fronteira segue normal.
Analistas avaliam que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela representa uma escalada sem precedentes e pode redefinir o equilíbrio político na América Latina.
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