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Por que Trump ameaça o equilíbrio global ao falar em “recuperar” petróleo?

A problematização de se apropriar de riquezas de outras nações é que, em primeiro aspecto, o domínio se dá através da força do hard power, ou da hegemonia do poder

Emanuele Braga
EMANUELE BRAGA

04/01/2026 • 14:29 • Atualizado em 04/01/2026 • 14:29

Trump cria "Gold Card", visto de R$ 5 milhões

Trump cria "Gold Card", visto de R$ 5 milhões

REUTERS/Ken Cedeno

Diante de toda a repercussão sobre os ataques estadunidenses contra a Venezuela, houve, também, uma nova afirmação, confirmada até mesmo pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: os EUA pretendem “recuperar” o petróleo presente no território venezuelano. Mas por que isso pode soar como ameaça não só a países sul-americanos, mas para o equilíbrio internacional?

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Durante um pronunciamento feito neste sábado (3), logo após os ataques e a captura do então presidente Nicolás Maduro, Trump afirmou que a infraestrutura de exploração e o petróleo da Venezuela pertencem aos EUA e foram “roubados” em gestões venezuelanas anteriores.

Em tom crítico, o presidente norte-americano comparou a perda do controle sobre os recursos naturais a “tirar doce de bebê” e, segundo ele, o petróleo da Venezuela faz parte da história dos Estados Unidos e deveria estar sob o seu domínio.

O Band.com.br conversou com o professor de Relações Internacionais da USP, Sidney Leite, que explicou que os EUA são a única superpotência existente no mundo. E a problematização de se apropriar de riquezas de outras nações é que, em primeiro aspecto, o domínio se dá através da força do hard power, ou da hegemonia do poder, isto é, política, cultural e econômica.

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Normalização da força

“O primeiro aspecto é esse: a normalização da força. O que de fato é uma temeridade, não só em relação ao que está acontecendo na Venezuela, mas o que está acontecendo na Ucrânia. Um acordo de paz na Ucrânia que legitime as possessões da Rússia, obtidas por intermédio da conquista militar, isso normaliza, o uso da força como uma fonte justificável para conquistar territórios de um outro estado”, explicou o professor.

Seguindo as normas do direito internacional, o professor explicou que a apropriação de recursos estratégicos contraria os princípios da carta da ONU, e consequentemente enfraquece as normas dos direitos internacionais.

O professor explica que, com a violação das regras, o direito internacional perde força e deixa de ser um equilíbrio de forças na ordem internacional, criando instabilidade na ordem internacional. Isso quer dizer, na prática, que os países mais poderosos econômica e militarmente serão favorecidos em ações unilaterais.

“Eles vão agir com mais desenvoltura diante da fragilidade institucional do próprio sistema e da própria ordem internacional. Isso pode criar aumentar o número de conflitos regionais, de conflitos internacionais”, disse.

Efeito dominó

Em outras palavras, o desequilíbrio internacional aumenta a dependência dos estados menores – como a Venezuela – e que não detêm o mesmo poderio militar e econômico.

“Eu diria que este fenômeno de exploração direta ou indireta de recursos naturais de um país para um outro país, como no caso os Estados Unidos pretendem, ou pelo menos foram anunciados em relação à Venezuela, cria uma distorção no próprio sistema econômico global”, completou.

É, canalizando a exploração dos recursos naturais, não em pro do desenvolvimento daquela nação que tem os recursos, né? Mas muito mais em pro é, dos estados que já ocupam uma posição dominante, uma posição de estados, né? Dominantes economicamente no sistema internacional. Emanuel, eu espero ter ajudado, qualquer é, dúvida eu tô à disposição. Um forte abraço.

Entenda a ofensiva dos EUA contra a Venezuela

Os Estados Unidos realizaram na madrugada de 3 de janeiro uma operação militar contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores. A ação provocou bombardeios em pontos estratégicos do país, um apagão em Caracas e levou o governo venezuelano a declarar estado de emergência, acusando Washington de violação de soberania

Horas depois, o presidente americano Donald Trump confirmou o ataque e afirmou que Maduro foi detido por forças dos EUA. Em declarações posteriores, Trump confirmou que o líder venezuelano foi levado para Nova York, nos Estados Unidos, para ser julgado por acusações de terrorismo e tráfico de drogas.

Em entrevista coletiva, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão governar a Venezuela após a captura de Maduro, declaração que ampliou a reação internacional e levantou questionamentos sobre uma possível ocupação ou administração provisória do país.

O presidente americano também afirmou que a ofensiva teve como um de seus objetivos a recuperação de petróleo que teria sido retirado dos Estados Unidos pelo regime venezuelano. Segundo Trump, o recurso foi tomado “como doce de bebê”, expressão usada por ele para justificar a intervenção e reforçar o discurso de prejuízo econômico aos EUA.

Ele também disse que a captura de Maduro serve como alerta a outros líderes que desrespeitem os interesses dos EUA. Trump declarou ainda que a Venezuela será “reconstruída” com recursos do petróleo recuperado pelos EUA, reforçando a ideia de controle econômico sobre Caracas.

Durante a ofensiva, bombardeios provocaram um apagão em Caracas, segundo autoridades locais, e aeronaves militares americanas foram registradas sobrevoando o território venezuelano.

Após o anúncio da captura, a vice-presidente da Venezuela exigiu provas de vida de Maduro, enquanto o governo chavista solicitou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU.

Trump afirmou que acompanhou a operação em tempo real e comparou a ação a um “reality show”. Mais tarde, a Casa Branca divulgou uma imagem de Maduro sob custódia, sendo levado aos Estados Unidos.

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Trump publica foto de Maduro sendo levado aos EUA | Crédito:  Reprodução/truthsocial.com/@realDonaldTrump

Na Venezuela, a captura do presidente aprofundou a instabilidade política e econômica. Houve corrida a mercados, e setores da oposição, representados pela líder da oposição, María Corina, passaram a defender uma transição de poder, enquanto cresce a incerteza sobre a condução do país.

A operação recebeu apoio de aliados do governo Trump. O vice-presidente americano afirmou que os ataques se justificam por um suposto “roubo de petróleo” por parte do regime venezuelano.

Em reação, líderes internacionais criticaram a ofensiva. A Rússia condenou a ação e classificou a operação como uma agressão armada.

No Brasil, o governo Lula criticou duramente a ofensiva, afirmando que a captura de um chefe de Estado estrangeiro ultrapassa os limites do direito internacional. O país elevou o nível de alerta militar no Norte, embora o Itamaraty tenha informado que a situação na fronteira segue normal.

Analistas avaliam que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela representa uma escalada sem precedentes e pode redefinir o equilíbrio político na América Latina.